23.5.06

Gente...

Que como nós se abre em fina flor E dá ao mundo a palavra vivida Nós que sentimos e temos Amor Como quem ama a própria vida... Contudo não somos o que dizemos ser Não sentimos com os olhos a chorar Choramos a verdade que nos faz crer Em rios de lágrimas que serão mar... E nós que somos gente como vós... Iguais ao que somos quando o olhar Se queda no eco da própria voz Para no mundo mais gente deixar E encantados seguirmos a nossa via De canto e encanto no mundo ter Não um rasgo nem estranha melodia Mas um poema sem fim... Algo de ti ou de mim... Tudo o que o Amor faça nascer E a nossa gente consiga ler. Gente... Todos os dias a gente aprende a ser um pouco mais... Gente com o coração ligado à sabedoria da Natureza que se chega ao Amor feliz de quem separa os gomos passados sorrindo com o que se têm ou restou. Na humanidade há pessoas que não compreendem o que é ser fruta sem dar valor ao sabor de uma única fruta crua recém tirada do pé. Há muita gente no mundo que não sabe como tirar lágrimas das pedras fechando os cílios com receio de passar a se apreciar os pôr-do-sol reais entre o arco-íris o pensamento incolor se mistura ao lado mais pobre no horror do suor dos mais pobres... junto ao lodo no mofo do desconforto acomodando os pensamentos criando teias e teias nas entranhas nos cômodos da dor há pessoas que se arruínam sozinhas e convidam outras. Gente que todos os dias aprende a ser Gente na ‘marra’. No meio do oceano náufragos entre os metais das máquinas caso quem ainda não soube o preço de uma só gota d´água de sonhos pode se perder nas sintonias atravessadas dos radares das parabólicas quem não observa o movimento das antenas das formigas quem se esquece de olhar para as fases da lua quem não lembra de buscar o brilho das estrelas em noites de breu Todas pessoas têm rios de Poesia caminhando nas veias... Teclas mais modernas registrarão passos, marcarão trajetórias não somos velhos tipos das máquinas de escrever no meio da Arte (in)conscientemente muitos adormecem não querendo ver a multiplicidade do prisma no Universo mesclando a riqueza dos mais intensos sons formando a História. Gente feliz com lágrimas (*) botão de rosa acolchoado fofo e demarcado na tua imagem desbotada em cada madrugada; que o sono não chega e me vejo suportada. Depois vem a dor e a saudade de amor de um homem fantasma partido de uma frase sempre sem sentido de ti ainda criança querido. Um dia depois de outro no tempo sempre repetido solidão aconchegada no regaço aquático de tanta lágrima chorada. Gente feliz com lágrimas (*) na garganta nas mãos na boca no silêncio no tecido pálido do vestido despido. Rasto de formiga branca Perdida. raio de lua quebrado pela tua mão fechada sublinhada de veias altas; entrelinhas e um gelado segredo repisado. O meu eu lentamente morrendo. Eu quase nada Eu mulher caída do muro falhado roubo no roseiral. A vertente das lágrimas o teu rosto de pedra, os teus olhos castanhos-claros e que mentem cada vez mais na pedra. Nunca olhes para as ruínas. Na tua saia, vejo o ser tradicional aquele que me ensinaram quando menino quando cantava no coro das flores e as beijava, entoando um cântico de louvor em torno dos narcisos. Nunca precisei de um rio para saber o quanto sou belo nem de uma folha de papel dobrada em quatro. Não me digam mais nada. Apenas que não sou. Posso fazer um corte na cara feito por uma roseira apenas para esconder a minha saudade interior: a beleza de haver perdido a ribeira que me enrolava os cabelos. Sei que nasci na serra de Sintra, defronte do castelo, mas não me lembro. Os deuses soltaram-se dos meus dedos enquanto beijava o colo de Vénus. Aproado sempre, meu amor à vista da chegada. Pela febre de escrever na pedra a pedra. Da vinha, para bater no vinho verde a palavra ( não de água, nem de lágrima) cerradamente o esboço dos montes e o corpo na visão do sol na égua. Como uma pintura morta, os movimentos surgem nas cores das frutas e do ferro. Eu penso e sinto a mesma inquietação sobre o meu altar de versos rimados vejo deitados os dedos desta mão que sobre o altar quero levantados mas quem vem comigo para elevar as lágrimas desta gente que de feliz apenas chora o gozo de ver chorar as pedras que circundam o chafariz? Que feche a porta quem hoje vier compor a ode que se quer celestial. No mar as musas cantam de prazer quando a corrente é de água e sal. No vão da escada aquela ténue luz de quem estendeu a mão na hora e riscou o fósforo na mesma cruz pregada à porta que se fecha agora... De não ser tudo, e ser a transparência da tua saia onde a onda e o espelho são o labirinto do mundo. Lavada pelas ondas do teu colo, o odor das flores e dos campos a fértil energia dos teus elementos, entre paredes de musgo e humidade encolho o meu corpo nos teus braços cansados. Respiro a tua pele nas minhas mãos e pouso-as na areia que amparou o desejo... Transbordamos o tempo na leveza do mar. Releio os teus dedos em algas longamente singradas e o zénite das lágrimas entranhado no sulco da praia. Reescreves na fragmentação dos lábios o cerne de todas as conchas acesas… Feliz na cadeira com a leitura das tuas ondas ardo em chama a escrever as palavras interditas; poderia continuar assim onde dói a garganta na sílaba ardente, essa luz que o teu olhar doou à densidade do meu e perder - se. ó mulher de longe feita de azul – emerge – nua longínqua poderei seguir a sombra do teu corpo, sem tocar prometo pertencer apenas ao teu imaginário o raio de luz pela febre de olhar, gota a gota o teu néctar na minha língua( não de sol mas do som) do teu corpo real entre as minhas pernas longas além da página das vinhas que o poema segreda como o maior dever. Prometo não falar do rosto azul da égua do campo da serenidade em que as ancas levemente despontam. com com paredes derrubadas e mato, e urze ao desenrolar dos suspiros na pele da noite. com luar, mas com sombras de sol feitas manta. cosendo retalhos em torno dos ombros para os reler, inteiros, ao apontar dos seios. com madrugada e com mel de rosmaninho, porque gosto. e com amoras, com cerejas mordidas no ramo mais alto, porque quero. com os poetas descalços nas cores de relva das palavras húmidas. e com o mar, e o mar em mim, ao fundo da terra. rasgada e coesa. ao passar das garças no rumo dos potros recém-nascidos à hora em que se parte o primeiro pão. de tudo escreverei, a tudo responderei. ao acordar dos lábios quando o tempo dorme. que espera é esta onde os montes se desfazem no teu olhar de ninfa azul procurando os astros? tenho a verga do artesão, o desenho das mãos com gestos que mentem a solidão dos dias. Os risos e cantares anunciam-te ao longe. Pelas serras, percorres os caminhos Ermos, serpenteantes, rasgados de tua pele Suor e lágrimas, mas principalmente por tua Devoção e ventura que sempre te leva Nas asas da imaginação a outras eiras mais Fartas e só por isso devaneias nas graças Tecendo os campos trigais de luar e esconjuras Mas os abraços e sorrisos proclamam-te Envolvem-te braços franzinos nos ósculos Sôfregos. Esse é o teu pão abençoado e De teus olhos desfia-se o azeite tempero. No aconchego do leito, esqueces provações E fecundas de novo o ventre suado, Prémio de teu labor, jorna e obrigação. Teus ossos já não reclamam e os nervos jazem adormecidos do coito retemperador Sopro de vida, esmaecida mas renovada. Como uma vida sem norte, amo o rio que explora a minha face. São pétalas cristalinas bailando nas curvas do meu rosto. São almas pequeninas que querem crescer. Desafio a criatividade e deixo que a palavra fale como último acto de saúde. Tua voz me puxa do ar, nesses momentos em que a única vontade é pedir licença e descer do mundo, só, exilada deste país em que todas as ruas vão dar no mar, emigrante de ritos não cumpridos. À procura de solo húmido, a lava sangrou, ainda desordenada, pelos poros da terra. Rompeu a mata, cobriu a estrada de névoa. o que mal me impede a visão, se tuas mãos tocam meus pés e me chamam para a paisagem. Adiante os campos dos goytacazes, no litoral, e eu, daqui, me preparo para a volta. se levo saudades, não temo a chegada; navego no canal de lágrimas sem barco, a escuna ao largo, eu, minha canoa, e a vontade de remar. Envolvido nas ondas espelhadas deste Verão transpirado, perco fôlegos que Nunca tive, nesta estrada sempre Acrescentada e de mim abandonada, Parece crescer minguando-me o ser, Eu que sou nada, finjo saber percorrer Essa mesma estrada de luz ultrajada A meus olhos, turvos de saudade, serás Sempre longínqua demais, queimas, afunilada. Para morrer feliz eu fui sinal de que vivi. Só parte aquele que chegou. Na dança macabra e sombria do sorrir Quero...não tenho !!!! Triste mas feliz... Triste mas ainda Vertendo gotas de mar dos olhos Derramando naus e caravelas Albatrozes, redes e gaivotas Sem marujos Sem vícios a mudar este lance ao acaso Esta torrente lacrimal de sal e riso, Triste, mas feliz caminho Gente : Sou feliz com lágrimas. Gente feliz com lágrimas (*) são velhos, Nascidos em lágrimas de amor que beijam fotografias enrugadas e olham para um céu mudo mas que ainda vive. recorda-se pétalas e contos ri-se problemas aos ventos abrem-se as rugas e descolam-se as raízes do sangue e de veias estende-se o sol e o rio bebe o sal das lágrimas. Lágrimas Quando criança Ouvia meu pai A dizer Um homem Não deve chorar Lágrimas Hoje pergunto Porque? Não posso chorar Se Jesus Chorou na cruz Para nos salvar… Mas as lágrimas não rolam, é o silêncio gerado em minhas entranhas, que potencializa o meu grito. Maior que minhas lágrimas, é a busca da Paz, finalmente encontrada em teu sereno amor, que preenche a alma como a brisa da primavera, na tempestade do verão. Entretanto geramos monstros (enfim!) e deuses entre gritos e ranger de dentes pois que o mar será sempre escasso ou jamais consumará a tal lágrima. (Lágrima... de gente feliz?) Sim, lágrima mas afinal de fato o que ser feliz a teu ouvido diz? que és completo que te sentas a ver o luar camisa branca a refletir um brilho? que és todos - num só? Não. como em silêncio interno interrompido na hora do desejo cala-te despertas apenas para o clamor da vida porque por tudo e apesar a vida está é esta Ouço sinais em meu coração como os que podem vir de uma plantação de trigo que a si mesmo se debulha e ali marca o endereço de fogo e de fagulha gotas de sol e lágrima em cada espiga tremem E fico a imaginar a vida a se alimentar elementar laço esquecido da felicidade trilha vácuo de amor De repente pingos de chuva clássica límpida frondosa a abraçar o chão (“GENTE” – um poema colectivo de “Encontros de Entrecampos”, com colaborações de: Ângela Nassim (Lynn), Eliana Mora, Luís Melo, Sónia Regina, Constantino Alves, Miguel Santos, Jorge Vicente, José Félix, Luísa Proença, Joseph Sherman, Alexandra Oliveira, José Gil, Ana Maria Costa, Mónica Correia, Carlos Savasini, Luís Monteiro da Cunha, A. Bittar, Rosangela Aliberti, Fernando Azevedo Corte Real, Xavier Zarco) (*) “Gente feliz com lágrimas”, do título do romance homónimo do escritor João de Melo.