
Que como nós se abre em fina flor
E dá ao mundo a palavra vivida
Nós que sentimos e temos Amor
Como quem ama a própria vida...
Contudo não somos o que dizemos ser
Não sentimos com os olhos a chorar
Choramos a verdade que nos faz crer
Em rios de lágrimas que serão mar...
E nós que somos gente como vós...
Iguais ao que somos quando o olhar
Se queda no eco da própria voz
Para no mundo mais gente deixar
E encantados seguirmos a nossa via
De canto e encanto no mundo ter
Não um rasgo nem estranha melodia
Mas um poema sem fim...
Algo de ti ou de mim...
Tudo o que o Amor faça nascer
E a nossa gente consiga ler.

Gente... Todos os dias a gente aprende a ser um pouco mais...
Gente com o coração ligado à sabedoria da Natureza
que se chega ao Amor feliz de quem separa os gomos
passados sorrindo com o que se têm ou restou.
Na humanidade há pessoas que não compreendem o que é ser fruta
sem dar valor ao sabor de uma única fruta crua recém tirada do pé.
Há muita gente no mundo que não sabe como tirar lágrimas das pedras
fechando os cílios com receio de passar a se apreciar os pôr-do-sol reais
entre o arco-íris o pensamento incolor se mistura ao lado mais pobre no horror do suor dos mais pobres... junto ao lodo no mofo do desconforto acomodando os pensamentos criando teias e teias nas entranhas nos cômodos da dor
há pessoas que se arruínam sozinhas e convidam outras.
Gente que todos os dias aprende a ser Gente na ‘marra’.
No meio do oceano náufragos entre os metais das máquinas
caso quem ainda não soube o preço de uma só gota d´água de sonhos
pode se perder nas sintonias atravessadas dos radares das parabólicas
quem não observa o movimento das antenas das formigas
quem se esquece de olhar para as fases da lua
quem não lembra de buscar o brilho das estrelas em noites de breu
Todas pessoas têm rios de Poesia caminhando nas veias...
Teclas mais modernas registrarão passos, marcarão trajetórias
não somos velhos tipos das máquinas de escrever
no meio da Arte (in)conscientemente muitos adormecem
não querendo ver a multiplicidade do prisma no Universo
mesclando a riqueza dos mais intensos sons formando a História.
Gente feliz com lágrimas (*)
botão de rosa acolchoado
fofo e demarcado
na tua imagem desbotada
em cada madrugada;
que o sono não chega
e me vejo suportada.
Depois vem a dor e a saudade de amor
de um homem fantasma partido
de uma frase sempre sem sentido
de ti ainda criança querido.
Um dia depois de outro
no tempo sempre repetido
solidão aconchegada
no regaço aquático
de tanta lágrima chorada.
Gente feliz com lágrimas (*)
na garganta
nas mãos
na boca
no silêncio
no tecido pálido do vestido
despido.
Rasto de formiga branca
Perdida.
raio de lua quebrado
pela tua mão fechada
sublinhada de veias altas;
entrelinhas e um gelado
segredo repisado.
O meu eu
lentamente morrendo.
Eu quase nada
Eu mulher caída do muro
falhado
roubo no roseiral.
A vertente das lágrimas
o teu rosto de pedra, os
teus olhos castanhos-claros e
que mentem cada vez mais na pedra.

Nunca olhes para as ruínas.
Na tua saia, vejo o ser tradicional
aquele que me ensinaram quando menino
quando cantava no coro das flores e as
beijava, entoando um cântico de louvor
em torno dos narcisos. Nunca precisei
de um rio para saber o quanto sou belo
nem de uma folha de papel dobrada em
quatro. Não me digam mais nada. Apenas
que não sou. Posso fazer um corte na
cara feito por uma roseira apenas para
esconder a minha saudade interior:
a beleza de haver perdido a ribeira que
me enrolava os cabelos.
Sei que nasci na serra de Sintra, defronte
do castelo, mas não me lembro. Os deuses
soltaram-se dos meus dedos enquanto
beijava o colo de Vénus.

Aproado sempre, meu amor à vista da chegada.
Pela febre de escrever na pedra a pedra.
Da vinha, para bater no vinho verde a palavra ( não de água, nem de lágrima)
cerradamente o esboço dos montes
e o corpo na visão do sol na égua.
Como uma pintura morta, os movimentos
surgem nas cores das frutas e do ferro.
Eu penso e sinto a mesma inquietação
sobre o meu altar de versos rimados
vejo deitados os dedos desta mão
que sobre o altar quero levantados
mas quem vem comigo para elevar
as lágrimas desta gente que de feliz
apenas chora o gozo de ver chorar
as pedras que circundam o chafariz?
Que feche a porta quem hoje vier
compor a ode que se quer celestial.
No mar as musas cantam de prazer
quando a corrente é de água e sal.
No vão da escada aquela ténue luz
de quem estendeu a mão na hora
e riscou o fósforo na mesma cruz
pregada à porta que se fecha agora...
De não ser tudo, e ser a transparência
da tua saia onde a onda e o espelho
são o labirinto do mundo.
Lavada pelas ondas do teu colo, o odor
das flores e dos campos a fértil energia dos teus
elementos, entre paredes de musgo e humidade
encolho o meu corpo nos teus braços cansados.
Respiro a tua pele nas minhas mãos
e pouso-as na areia que amparou o desejo...
Transbordamos o tempo na leveza do mar.

Releio os teus dedos em algas
longamente singradas e o zénite
das lágrimas entranhado no sulco da praia.
Reescreves na fragmentação dos lábios
o cerne de todas as conchas acesas…
Feliz na cadeira com a leitura das tuas ondas
ardo em chama a escrever as palavras interditas;
poderia continuar assim onde dói a garganta
na sílaba ardente, essa luz que o teu olhar
doou à densidade do meu e perder - se. ó mulher
de longe feita de azul – emerge – nua longínqua
poderei seguir a sombra do teu corpo, sem tocar
prometo pertencer apenas ao teu imaginário
o raio de luz pela febre de olhar, gota a gota
o teu néctar na minha língua( não de sol
mas do som) do teu corpo real entre as minhas
pernas longas além da página das vinhas que
o poema segreda como o maior dever. Prometo
não falar do rosto azul da égua do campo da
serenidade em que as ancas levemente despontam.

com com paredes derrubadas e mato, e urze
ao desenrolar dos suspiros na pele da noite.
com luar, mas com sombras de sol feitas manta.
cosendo retalhos em torno dos ombros
para os reler, inteiros, ao apontar dos seios.
com madrugada e com mel de rosmaninho, porque gosto.
e com amoras, com cerejas mordidas no ramo mais alto, porque quero.
com os poetas descalços nas cores de relva das palavras húmidas.
e com o mar, e o mar em mim, ao fundo da terra.
rasgada e coesa. ao passar das garças no rumo dos potros recém-nascidos
à hora em que se parte o primeiro pão.
de tudo escreverei, a tudo responderei.
ao acordar dos lábios quando o tempo dorme.

que espera é esta onde os montes se desfazem
no teu olhar de ninfa azul procurando os astros?
tenho a verga do artesão, o desenho das mãos
com gestos que mentem a solidão dos dias.
Os risos e cantares anunciam-te ao longe.
Pelas serras, percorres os caminhos
Ermos, serpenteantes, rasgados de tua pele
Suor e lágrimas, mas principalmente por tua
Devoção e ventura que sempre te leva
Nas asas da imaginação a outras eiras mais
Fartas e só por isso devaneias nas graças
Tecendo os campos trigais de luar e esconjuras
Mas os abraços e sorrisos proclamam-te
Envolvem-te braços franzinos nos ósculos
Sôfregos. Esse é o teu pão abençoado e
De teus olhos desfia-se o azeite tempero.
No aconchego do leito, esqueces provações
E fecundas de novo o ventre suado,
Prémio de teu labor, jorna e obrigação.
Teus ossos já não reclamam e os nervos
jazem adormecidos do coito retemperador
Sopro de vida, esmaecida mas renovada.
Como uma vida sem norte, amo o rio que explora a minha face.
São pétalas cristalinas bailando nas curvas do meu rosto.
São almas pequeninas que querem crescer.

Desafio a criatividade e deixo que a palavra fale
como último acto de saúde. Tua voz me puxa
do ar, nesses momentos em que a única vontade
é pedir licença e descer do mundo, só, exilada
deste país em que todas as ruas vão dar no mar,
emigrante de ritos não cumpridos.
À procura de solo húmido, a lava sangrou,
ainda desordenada, pelos poros da terra.
Rompeu a mata, cobriu a estrada de névoa.
o que mal me impede a visão, se tuas mãos
tocam meus pés e me chamam para a paisagem.
Adiante os campos dos goytacazes, no litoral,
e eu, daqui, me preparo para a volta.
se levo saudades, não temo a chegada;
navego no canal de lágrimas
sem barco, a escuna ao largo,
eu, minha canoa, e a vontade de remar.
Envolvido nas ondas espelhadas deste
Verão transpirado, perco fôlegos que
Nunca tive, nesta estrada sempre
Acrescentada e de mim abandonada,
Parece crescer minguando-me o ser,
Eu que sou nada, finjo saber percorrer
Essa mesma estrada de luz ultrajada
A meus olhos, turvos de saudade, serás
Sempre longínqua demais, queimas, afunilada.

Para morrer feliz eu fui sinal de que vivi.
Só parte aquele que chegou.
Na dança macabra e sombria do sorrir
Quero...não tenho !!!!
Triste mas feliz...
Triste mas ainda
Vertendo gotas de mar dos olhos
Derramando naus e caravelas
Albatrozes, redes e gaivotas
Sem marujos
Sem vícios a mudar este lance ao acaso
Esta torrente lacrimal de sal e riso,
Triste, mas feliz caminho
Gente :
Sou feliz com lágrimas.
Gente feliz com lágrimas (*) são velhos,
Nascidos em lágrimas de amor
que beijam fotografias enrugadas
e olham para um céu mudo mas que ainda vive.
recorda-se pétalas e contos
ri-se problemas aos ventos
abrem-se as rugas e
descolam-se as raízes do sangue
e de veias estende-se o sol
e o rio bebe o sal das lágrimas.
Lágrimas
Quando criança
Ouvia meu pai
A dizer
Um homem
Não deve chorar
Lágrimas
Hoje pergunto
Porque?
Não posso chorar
Se Jesus
Chorou na cruz
Para nos salvar…
Mas as lágrimas não rolam,
é o silêncio gerado em minhas entranhas,
que potencializa o meu grito.
Maior que minhas lágrimas,
é a busca da Paz, finalmente
encontrada em teu sereno amor,
que preenche a alma como a brisa da primavera,
na tempestade do verão.

Entretanto
geramos monstros (enfim!)
e deuses
entre gritos
e ranger de dentes
pois que o mar
será sempre escasso
ou jamais consumará
a tal lágrima.
(Lágrima... de gente feliz?)
Sim, lágrima
mas afinal
de fato
o que ser feliz a teu ouvido diz?
que és completo
que te sentas a ver o luar
camisa branca a refletir um brilho?
que és todos - num só?
Não.
como em silêncio interno interrompido
na hora do desejo
cala-te
despertas apenas para o clamor da vida
porque por tudo e apesar a vida está
é esta
Ouço sinais em meu coração
como os que podem vir de uma plantação de trigo
que a si mesmo se debulha
e ali
marca o endereço de fogo e de fagulha
gotas de sol e lágrima
em cada espiga tremem
E fico a imaginar a vida a se alimentar
elementar laço esquecido da felicidade
trilha
vácuo de amor
De repente pingos de chuva
clássica límpida
frondosa a abraçar o chão

(
“GENTE” – um poema colectivo de “Encontros de Entrecampos”, com colaborações de: Ângela Nassim (Lynn), Eliana Mora, Luís Melo, Sónia Regina, Constantino Alves, Miguel Santos, Jorge Vicente, José Félix, Luísa Proença, Joseph Sherman, Alexandra Oliveira, José Gil, Ana Maria Costa, Mónica Correia, Carlos Savasini, Luís Monteiro da Cunha, A. Bittar, Rosangela Aliberti, Fernando Azevedo Corte Real, Xavier Zarco)
(*) “Gente feliz com lágrimas”, do título do romance homónimo do escritor João de Melo.